segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Uma lição de capitalismo

 

Sou do tempo do cassete. Todo mundo tinha umas fitinhas com suas músicas prediletas. A gente comprava compactos – um pequeno vinil com no máximo quatro músicas, duas de cada lado – que eram os chamados singles , ou músicas de trabalho, das nossas bandas favoritas. Como a gente não nadava na grana, os compactos eram passados de mão em mão e a gente ia formando as nossas fitas cassetes das músicas preferidas. Em seguida eram as fitas que passavam de mão em mão. Mas como o mundo eram muito menos globalizado do que hoje em dia e a tecnologia , principalmente, era menos desenvolvida – toda esta onda não representou uma perda significativa para a indústria fonográfica, ainda que tenha passado pela cabeça dos chefões dos estúdios inibir esse movimento. Mesmo assim, nunca se ganhou tanto dinheiro com a venda de discos, de fitas cassete, de gravadores e pickups. Ou seja, independente dos interesses da indústria fonográfica, se dava dinheiro, o capitalismo se punha em marcha e colocava no mercado o que o mercado queria. Ainda que, de uma certa maneira, estivesse estimulando uma onda que, na origem, era contra o mainstream, ou melhor, o sistema.

Sou portanto um dinossauro. Professor de história por formação. Corpo velho, mas mente ativa. Antenado, como se diz hoje em dia. Ainda assim, fica dificil compreender o avanço tecnológico. Fico na ponta de consumo: usufruo sem procurar me especalizar nos meandros midiáticos. Deixo para os nerds e geeks o desenvolvimento de novas e cobiçadas tecnologias.

Me espanto em ver filmes inteiros em memória flash e com qualidade superior às fitas magnéticas de um passado nem tão remoto. Discografias em mp3 sendo carregadas de um lado para o outro em aparelhos celulares. Zilhões de fotos acumuladas em câmeras digitais que custam cerca de 150,00 reais e podem ser reproduzidas e distribuidas entre todos pelas redes sociais ou mesmo diretamente por mercanismos como o bluetooth, que já vêm nas câmeras, nos celulares, mp4, etc etc. Aumentando exponencialmente a capacidade de reprodução de conteúdo e facilitando sobremaneira nossa vida cotidiana.

Ah , o que não faríamos com esses gadgets nos anos 60 70 80 90?!

Que inveja dessa juventude que pode carregar consigo uma biblioteca inteira em poucos centímetros de pura arquitetura tecnológica. Quanto menor, melhor.

É o que eu chamo de capitalismo hipócrita. Capaz de se alimentar de mecanismos que, em teoria, representam os limites para sua criação de lucros e dividendos, recriando-se na destruição provocada por sua própria incapacidade de impor limites aos seus interesses corporativos e al avanço científico e tecnológico, cujas amarras foram desatadas a partir da revolução industrial.

Por isso, enquanto no judiciário os defensores do copyright lutam para coibir as práticas de distribuição de conteúdos, ramos diferentes dos mesmos conglomerados inundam o mercado de gadgets capazes de alavancar justamente a compressão e distribuição de produtos culturais, ou seja, livros revistas músicas e filmes, colocando o mercado no que. no meu tempo se chamava, uma sinuca de bico.

Mas, demonstrando uma saúde fantástica, e uma capacidade única de se reinventar, o capitalismo vai sobreviver à mais esta provação; como sobreviveu ao socialismo, ao comunismo, ao muro de berlim, à guerra, às crises sazonais, etc.

Não entendam este último parágrafo como um elogio, mas como uma constatação.

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